A Reprodução Proibida, René Magritte, 1937. “Eu é um outro”, escreveu Rimbaud numa das suas mais célebres frases. A proposição pode ser interpretada no sentido (duplo) Heideggeriano. Quer dizer, num primeiro tempo, a linguagem surge-nos enquanto sistema ou natureza autónoma que interpela o homem; num segundo, como perda da autenticidade (ou decadência) em que passamos a um “nós” totalitário como característica da sociedade de massas. Porém, Magritte ao proibir a auto reprodução, proclama que não há existência de um “eu” que não se subtraia a um “tu”, para tal, questiona os limites da reprodução nesta era do vazio , mostrando um homem em frente a um espelho, onde o reflexo não é a imagem do seu rosto, mas das suas costas: “o eu é detestável”, afirmaria igualmente Rimbaud. Em “Reprodução P...
Imagem: Anselm Kiefer, sem título. Óleo, acrílico, carvão, chumbo, ramos e gesso sobre tela. 330 x 380 cm. 2006. Anselm Kiefer presta recorrentemente homenagem a Paul Celan e nela reflecte a âncora da sua obra na história. As suas obras incorporam as palavras do poeta. Ambos falam de vidas singulares suspensas num silêncio, pictórico no caso de Kiefer. Nesta gigantesca tela os ramos carbonizados que estão num plano mais próximo parecem dirigir-se a nós a rastejar à procura de uma saída. Como escapar a um destino de cabeças vergadas, parece ser a pergunta que emana do quadro. Os temas de Celan que Kiefer retrata, servem como meio para evitar a amnésia colectiva diante das brutalidades e tragédias históricas. É sobejamente conhecido o veredi...
Desperdicei o tempo, e agora é o tempo que me desperdiça. Pois fez de mim o seu relógio. Os meus pensamentos são minutos, e com suspiros tocam No mostrador dos meus olhos Onde o meu dedo, como um ponteiro Avança ainda, limpando-lhe as lágrimas. - Ricardo II A força viva da arte de William Shakespeare ilustra bem o modo como compreendemos o tempo. No famoso solilóquio de Ricardo II antes de morrer, o rei compara-se a um relógio. É uma analogia na qual compara os seus olhos ao mostrador, o seu pensamento aos minutos, e os seus dedos aos ponteiros do relógio. O tempo é um dos enigmas mais antigos da filosofia. E é de tal modo importante, já que a filosofia, desde os seus primórdios, chegou a definir a verdade, como o contrário do tempo – a eternidade. Como se sabe, Platão estabeleceu a eternidade para definir o ser de tudo aquilo que é. Quer dizer: aquilo que não muda é que é a verdade. A partir daqui, traçou-se a linha me...
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