A Reprodução Proibida, René Magritte, 1937. “Eu é um outro”, escreveu Rimbaud numa das suas mais célebres frases. A proposição pode ser interpretada no sentido (duplo) Heideggeriano. Quer dizer, num primeiro tempo, a linguagem surge-nos enquanto sistema ou natureza autónoma que interpela o homem; num segundo, como perda da autenticidade (ou decadência) em que passamos a um “nós” totalitário como característica da sociedade de massas. Porém, Magritte ao proibir a auto reprodução, proclama que não há existência de um “eu” que não se subtraia a um “tu”, para tal, questiona os limites da reprodução nesta era do vazio , mostrando um homem em frente a um espelho, onde o reflexo não é a imagem do seu rosto, mas das suas costas: “o eu é detestável”, afirmaria igualmente Rimbaud. Em “Reprodução P...
Imagem: Anselm Kiefer, sem título. Óleo, acrílico, carvão, chumbo, ramos e gesso sobre tela. 330 x 380 cm. 2006. Anselm Kiefer presta recorrentemente homenagem a Paul Celan e nela reflecte a âncora da sua obra na história. As suas obras incorporam as palavras do poeta. Ambos falam de vidas singulares suspensas num silêncio, pictórico no caso de Kiefer. Nesta gigantesca tela os ramos carbonizados que estão num plano mais próximo parecem dirigir-se a nós a rastejar à procura de uma saída. Como escapar a um destino de cabeças vergadas, parece ser a pergunta que emana do quadro. Os temas de Celan que Kiefer retrata, servem como meio para evitar a amnésia colectiva diante das brutalidades e tragédias históricas. É sobejamente conhecido o veredi...
Bons tempos, para variar Ardemos variamente em variadas flamas. E vivemos intensamente o contraditório do fogo delas: “Bons tempos, para variar./ Vê, a sorte que tive / a de poder fazer um homem bom tornar-se mau" . Os Smiths intelectualizaram o amor, adensando-o, povoando-o de solidão e de sofrimentos, fazendo aqueles versos que exprimiam o que nunca ninguém antes deles soube exprimir tão dramaticamente: “E tão fácil rir/é tão fácil odiar/ mas é preciso ter coragem para ser gentil e carinhoso” ( I Know It´s Over) . Souberam dar forma e consistência às sombras, movidos por uma íntima luz dramática, projectando-as numa melancolia de elaborações compensatórias: “Então pela primeira vez na minha vida/ deixa-me conseguir o que quero/Deus sabe, seria a primeira vez" ....
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